A LITURGIA DA IGREJA CATÓLICA

Noções Gerais
 
1. A palavra liturgia significa ação do povo (leitós ergon).

Nos meios católicos, quando se fala em Liturgia, já se pensa em templo, altar, Missa, Sacramentos, etc. Mas essa realidade tem que ser diferente, mesmo porque o conceito de Liturgia é anterior ao Cristianismo, mais velho do que a Igreja. Os hebreus e os outros povos já faziam liturgias. Só mais tarde é que a Igreja a assumiu e batizou.

Firmemo-nos, portanto, no conceito verbal, primitivo, sem conotações de fé, religião, altar. Imaginemos um encontro de duas pessoas que se estimam, que se amam…

De início, a explosão de alegria sem medidas, sem contornos; depois, um grande abraço, dois beijinhos, sorrisos, brilho nos olhos, uma conversa gostosa…

Podemos dizer que, nesse encontro, aconteceram uma liturgia e um rito: a liturgia foi o encontro e toda a efusão de sentimentos que esse encontro provocou; o rito foi a formalização do encontro: um abraço (somente um), dois beijinhos (somente dois).

Temos aí uma atitude essencialmente humana, imanente, existencial.

2. Podemos agora entrar na Igreja. De vários modos definimos a Liturgia Católica: é festa, é encontro, é relação, é culminância de relacionamentos. Vamos nos questionar sobre o sentido exato dessas definições, sobre o que, de fato, acontece conosco quando celebramos:

a. Liturgia-Festa – Nos dias festivos (domingos, etc.), arma-se um arcabouço de festa externa que acaba se transformando em enfeite da Liturgia. Nos outros dias, sem enfeites, caímos na real. Ora, a Liturgia deve ter um sentido de festa que lhe é intrínseco, que não depende de aparatos externos para ser festa. Não se pretende, porém, negar que o aparato externo aumenta-lhe o brilho. Mesmo com a montagem externa, será que nossos sentimentos são de festa? Poderíamos comparar a “festa” de nossas liturgias com aquela festa acontecida no encontro de amigos lá na rua, com abraços e beijos? Nossas liturgias e os nossos encontros teriam o mesmo sentido? Falta-nos muito para transformar nossas liturgias em festa.

b. Liturgia-Encontro – Chegados ao templo, vamos nos sentado, isto é, vamos nos aglutinando lado a lado. Às vezes arriscamos um “bom dia” tímido e vamos cuidando de nossas orações particulares. Assim acontece nosso encontrocom o irmão, na Liturgia. Embora fisicamente próximos, nossa Liturgia é uma celebração de separados. E já estamos, de tal modo, condicionados por essa separação que, quando alguém murmura algo, tenta dizer alguma coisa ao vizinho ou companheiro, soa mal, é motivo de reprovação. Em alguns lugares, há até pessoas atentas a reprimir qualquer “abuso” no templo. Neste caso, o templo adquire tal sacralidade que abafa as pessoas. Invertendo os valores, o templo é sagrado e nós não somos nada. Só para lembrar, algumas vezes somos definidos como templos do Espírito Santo, mas isso não é pra valer… A situação criada pelo silêncio sagrado, constrangedor, terrível, transforma a Liturgia em celebração intimista: cada um celebra para si mesmo, cada um se dirige a Deus de modo muito pessoal, privado. Neste caso, aquela definição de Liturgia segundo a qual os irmãos celebram entre si e com Jesus Cristo acaba combaleando entre o ser e o não ser: é celebração dos irmãos reunidos, mas não unidos; é celebração com Jesus Cristo, isto é, cada um com Ele.

c. Liturgia-Relação – O exercício de qualquer virtude, bem como a prestação de qualquer serviço ou a manifestação de um testemunho requer sempre relação com outrem, alteridade. Ser fraternal consigo mesmo é puro egoísmo.

A Liturgia, por ser ação, é essencialmente relação. Celebrar é entrar em comunhão, é passar do eu para o nós, da minha para a nossa Missa.

d. Culminância de Relacionamentos

 - Essa é uma das definições da Santa Missa. Ora, se ela é culminância, supõe outros relacionamentos servindo-lhe de degraus. Saltar da planície para o cume do monte pode ser desastroso e é isso mesmo que nos tem acontecido: fomos levados para a Santa Missa ser ter sido iniciados em celebrações menores, sem ter recebido iniciação celebrativa.

 Daí, ocorre que a Santa Missa é culminância sem degraus. Quem não fez outros relacionamentos antes da Santa Missa, isto é, quem passou a semana vazio de boas ações não tem motivos para celebrar no domingo1. Quem não aprendeu a tomar uma xícara de chá, não saberá servir-se num banquete.
Pelo que acabamos de ver, a Liturgia começa lá fora, na rua, em casa, no escritório e culmina no altar. Lembremos o conselho de Jesus: “Se tu vais fazer uma oferenda no altar e te lembras de que teu irmão tem algo contra ti, vai primeiro te reconciliar com teu irmão, depois volta para fazer tua oferenda”.

Se a liturgia começa lá fora e culmina no altar, a pastoral, que é a salvação em exercício, começa no altar e se projeta pela vida.

Somente assim se pode entender como a Liturgia é fonte e cume da vida cristã: fonte, começando em casa; e cume, concluindo-se no altar, na comunhão dos irmãos com Jesus Cristo.

3. Liturgia é ação, força, vida. É comunicação. O rito é a formalização da Liturgia. Formalização metódica que busca alcançar o objetivo da celebração sem detalhes supérfluos, sem rodeios desnecessários. O rito não é essencial à celebração (no sentido de que não possa ser mudado), mas lhe é necessário, isto é, não pode ser dispensado ou alterado à revelia, ao gosto de cada um. É função do rito conduzir a comunidade num gesto harmônico, igual, capaz de promover a comunhão.

A Igreja permite que se façam adaptações na Liturgia, de modo especial no rito, desde que ocorra necessidade de inculturação, de explicitação mais inteligível do mistério, de evitar conflitos com os costumes de um povo e que não se adultere o conteúdo essencial da Liturgia. Tudo isso exige formação litúrgica da parte de quem faz a adaptação.

4. Equipe não é grupo de trabalho. No grupo de trabalho, pode cada um executar sua função independente das funções dos outros. No final, todos se encontram. Tarefeiros não formam equipe. A tarefa é ação isolada enquanto a equipe exerce ação conjunta. De certo modo, a equipe tolhe parte da liberdade dos seus membros. Na máquina, as peças estão todas atreladas umas às outra, de tal modo que não podem ser soltar. A equipe não age como máquina, mas seus componentes têm de ceder parte do seu egoísmo e amor próprio para que, conscientemente, assumam o compromisso de fazer funcionar alguma coisa.

Uma equipe será tanto mais harmoniosa quanto mais seus membros se dispuserem a criar uma alma coletiva. Isto não significa que os membros de uma equipe devam abdicar de sua personalidade. Significa, isto sim, que cada um pode e deve agir como os outros pensam, mesmo pensando de modo diferente. E não basta agir; tem de assumir. É assim que deve ser uma Equipe de Liturgia.

5. A liturgia é um conjunto de sinais e símbolos. O sinal é alguma coisa que significa, representa, simboliza, exprime, traduz. Não basta fazer ações litúrgicas, importa saber o que essas ações significam. É necessário saber o setido dos sinais. Diane de qualquer imagem desconhecida, estranha ou esquisita, vêm-nos à mente uma pergunta: qual o significado disso?

Com essa pergunta, estamos afirmando que tal figura tem um significado e, neste caso, a figura é significante. A relação porventura existente entre o significado e o significante é a significância. O significante é sempre menor do que o significado (ex.: uma placa de trânsito indicando passagem de nível – se você não parar, não olhar e não escutar, poderá ser triturado por uma locomotiva. Ainda na sinalização de trânsito: uma pequena placa com seta indica rumo à direita; se você entrar para a esquerda…

 Um cabo de vassoura fincado no meio do asfalto pode indicar um enorme buraco. Um galho de árvore na curva da estrada indica um grave acidente, um caminhão tombado na pista, etc.).

Como se vê, há uma enorme desproporção entre o valor do sinal e o seu significado. Na Liturgia, essa diferença é ainda maior: a vela acesa significa a ressurreição de Jesus, a Vida do Ressuscitado, a Páscoa; tomar água significa regeneração, morte e ressurreição, a filiação divina; o desenho de um peixe significa Jesus Cristo; um pão ou um cesto de pães significam a Eucaristia; a cruz significa a Redenção…

 Usemos, agora, um outro exemplo para compreendermos a significância: entre a luz vermelha de um semáforo e a interrupção do trânsito existe apenas uma convenção. O mesmo sinal vermelho é posto na carteira do aluno gazeteiro ou no livro-caixa da empresa e não guarda nenhuma relação com o significado, não existe significância. Já entre água e regeneração, existe uma relação íntima e profunda.

O círio é a vela símbolo da ressurreição. O mistério da chama que sempre se renova na cremação do combustível é símbolo da vida que nunca se acaba; enquanto houver pavio e cera, a chama será sempre outra. No Batismo, entrega-se à criança uma vela que terá sido acendida na chama do círio pascal, para significar que, pelo batismo, comunica-se ao crente a vida do Cristo que não morre mais.

 Os sinais devem ser claros e inteligíveis de tal modo que o observador não encontre maiores dificuldades em relacionar o significante com seu significado. Essa relação é a significância. Os símbolos são um pouco diferentes: para seu claro entendimento, há necessidade de uma iniciação. Peixe, em grego, é IXTUS, que corresponde à sigla formada pelas iniciais de Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador. A flor de liz é o símbolo de Maria; sobrepondo-se à flor de liz as iniciais XP (Cristo), temos: Cristo, nascido de Maria. Peixes e um cesto de pão significam alimento que dá a vida eterna. Tanto na sinalética quanto na simbologia, significância é a relação existente entre o significante e o significado.
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Uma pessoa sem vivência cristã, “vazia por dentro”, se for à Igreja, talvez ainda consiga aproveitar a Palavra.

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